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Leva o menino e a mãe

Dia 18 de Dezembro é Dia Internacional das Migrações. Neste dia, gostaria de dar voz a uma família migrante. É uma entre muitas, mas vale a pena ser conhecida. A história é contada pelo pai.


O nosso primeiro filho era especial. Sim, todos o são, mas nestas circunstâncias mais ainda. O nascimento dele já tinha sido extraordinário. Mais extraordinário para mim foi ouvir um velho sábio dizer que o menino seria sinal de divisão, que seria motivo de ruína ou de salvação… O nosso país tinha vivido debaixo de um regime opressor há séculos, que matava quem se atravessasse no seu caminho… eu pensei: Terá este bebé alguma coisa a ver com a política? Mas nós somos gente de paz, por amor de Deus! O velho virou-se para a minha mulher e continuou: “Uma grande dor, como golpe de espada, trespassará a tua alma.” Ficámos os dois perturbados, a meditar naquilo.

Algum tempo depois, durante a noite, recebo um aviso. “Levanta-te! Passa a fronteira com a tua família, que nós não garantimos a tua segurança aqui.” Quando é o próprio Estado que promove o terror e a perseguição, ninguém está a salvo. Mais tarde soube dos muitos que não foram avisados… que horror! Ainda hoje sofro com nisso.

Ainda mal refeito do sono e do susto, visto-me e chamo a Miriam: Acorda, querida, vamos embora. Ela nem abre os olhos: “Dorme, homem.” Não posso dormir, nem eu nem tu. Ensonada, ela olha para mim e pergunta: “Mas tiveste um pesadelo?” É o pesadelo em que temos andado a pensar que se tornou real. Ela repara na minha expressão, vê que já estou vestido, e acorda imediatamente. Levanta-se de um salto e começa a vestir-se. “Ai, então vamos, sim – mas como? para onde?” Para a fronteira mais próxima, por estradas secundárias e sem passar pela capital. “É assim tão grave?” Falamos no caminho; vai arranjar o menino que eu trato da trouxa e do farnel.

Partimos sem mesmo nos despedirmos de ninguém. Só levámos as minhas ferramentas, uma muda de roupa e as prendas do nascimento, que nos sustentaram até que arranjei trabalho regular. Felizmente a fronteira não estava guardada: se fosse hoje, não teríamos conseguido passar! O único problema foram os seis dias a pé até lá chegar. Bem, e depois da fronteira foi refazer a vida: novo trabalho, novos costumes, uma nova língua. “Não és de cá, pois não? Vejo pelo teu sotaque…” Isto diziam os que gostavam de mim: os outros viam pela minha pele, ou pelo meu cheiro…

Daí a uns anos, recebo novo aviso: o perigo passou. Regressamos à nossa terra. A vida volta à rotina por mais uns anos. Quando nos lembramos, ainda nos rimos do salto dela! Éramos tão jovens… E foi assim a nossa aventura.


Quer seja à nossa volta, ou até nós próprios, muita gente vem e vai. Ser ou receber migrantes tem grandes desafios: a cultura que chega ou a cultura a que chegamos, a língua, os cheiros, as cores, o clima… até o céu pode ser diferente se viajarmos um pouco mais.

Há mudanças que são provocadas por sonhos, por bons desafios, por novas oportunidades! E mesmo nessas, por norma voluntárias, motivadas por algo bom e por si só carregadas de entusiasmo… temos que lidar com incerteza, medo, solidão, adaptação….

E há as outras, como foi o caso de Jesus, motivadas por uma necessidade de sobrevivência ou escassez de recursos ou instabilidade política… ou alguma situação na qual nos vemos, não controlamos e resta-nos apenas “sair” na expectativa de escapar com vida.

Yosef, Miriam e Yeshua – José, Maria e Jesus – fugiram da Judeia para o Egito para se salvarem. Tal como eles, muitos hoje em dia saem das suas terras em busca de uma vida melhor, de mais condições, mais segurança, de poder estudar – ou, simplesmente, de sobreviver.

Deus é amor; por vezes o seu amor livra-nos das dificuldades, outras vezes tem um amor maior em vista. Noto que Deus o Pai enviou um anjo – mas para avisar do perigo, e não para proteger Jesus do perigo. Daqui tiramos uma importante lição:

Jesus não se identifica com os pobres e os deslocados como quem assume uma causa. Jesus, ele mesmo, foi um pobre e um deslocado. E Deus Pai era plenamente com Ele, em todos os lugares, em todo o tempo, em todos os contextos.

Feliz Dia Internacional das Migrações a todos os que alguma vez tiveram que sair do seu país.

Feliz Dia Internacional das Migrações a todos os que leem e meditam nestas palavras.

O Senhor, o Senhor é connosco.

Júlio Reis

Mestrado em Engenharia Informática. Mestrado em Gestão de Organizações de Economia Social. Aluno do Seminário Teológico Baptista. Coordenador de Redes e de Desenvolvimento Organizacional, A Rocha Internacional. Dirigente da Fundação Vida Nova e da Eunoia.